Do Atlântico ao Pacífico (final)

Em continuidade à cobertura da viagem solo de Fábio Colaferro, confira os relatos do décimo segundo ao décimo sexto dia. “Dia 12. De San Pedro de Atacama a San Antonio de los Cobres. Na noite anterior, comecei a pensar sobre a possibilidade de atravessar a Cordilheira dos Andes pelo Paso Sico, trezentos e cinqüenta quilômetros na terra, cascalho, areia, pedra, sem combustível, nem postos, nem cidades, nem tráfego na ruta 51. E os caras esqueceram de colocar no Google Maps essas estradas em que vou andar. Atingindo 3.900 metros, parei, desliguei o sistema ABS para pilotar off-road e murchei os pneus. Estava com o dianteiro pressurizado em 42 libras e deixei com 30. O traseiro estava com 36, e reduzi para 25 libras. Perto da Laguna Calientes encontrei um tiozinho francês correndo e não entendi nada. Depois que eu vi isso, achei minha aventura por aquela estrada coisa de criança, acabou minha tensão, meu medo, etc. Em algum ponto eu atolei feio. Por pouco não liguei o celular por satélite (Iridium) e chamei a minha mãe! Já estava totalmente molhado e morrendo de frio. Mas os problemas do dia infelizmente não terminariam com esta atolada. Daí a chuva me pegou feio a 45 km de San Antonio de Los Cobres. Como na vinda, os flocos de neve começaram, só que agora como nevasca mesmo! Sinceramente não dava para acreditar naquilo. Neste ponto começava a descida da Cordilheira dos Andes. Na terra, um barro só e os desfiladeiros a 50 centímetros o tempo todo. Fiz o que pude e acho que fiz muito. Mas dois tombos foram inevitáveis. E assim eu pilotei por 300 quilômetros na terra, por 10 horas. A moto sambava o tempo todo. Cheguei a San Antonio de Los Cobres às 07h20 da noite. Dia 13. De San Antonio de los Cobres a Yerba Buena (ARG). Noite super mal dormida, depois do café, fui checar o óleo e quase cai para trás. Havia completado ao sair de San Pedro e talvez por causa das quedas, houve vazamento. Dica para quem vai fazer viagens longas de moto: leve um litro de óleo (no meu caso, o Motul 3000 20W50 4T Mineral). On the road again… de terra, rípio, com buracos, etc. Mas sem chuva, o que está um trilhão de vezes melhor do que ontem. Assim que entrei na pista de asfalto, encontrei um casal de suíços que estão viajando de bicicleta há quatro meses. A aventura deles está registrada no site rosyphil.com. Antes de chegar a Salta, havia mais uns 40 quilômetros de terra. Esta estrada tinha uns 20 pontos ou mais para testar a habilidade off-road de qualquer piloto. Fiquei embasbacado com a beleza deste trecho de San Antonio de Los Cobres até Salta. É um cenário exuberante, para não perder para qualquer paisagem européia ou outra qualquer. Precisava chegar a Yerba Buena às 17 horas. Havia agendado a revisão de 10 mil km. Dia 14. De Yerba Buena a Corrientes. Desde ontem à noite pensava em mudar os planos novamente, pois não queria voltar para o Brasil pelo mesmo caminho que eu vim. Então resolvi rodar uns 150 quilômetros a mais, voltando em direção a Salta para pegar o Chaco! Então, rumo ao Pampa Del Infierno! Parei para abastecer e descobri que estava faltando nafta (gasolina) em todo o trajeto. Novamente, lembre-se que a viagem só termina quando você chega! Parei no “posto”, ou melhor, na casa do mano Walter Gonzales ele estoca gasolina na garagem da sua casa e vende mais caro sempre que falta. Rodo uns 5 quilômetros e… PERDI A MALA DO TANQUE!!!!! Gente, coisa de filme! Andei no acostamento do lado direito e esquerdo da estrada por uns 4 quilômetros. Após uma hora e meia de procura, lembrei que naqueles 35 graus de temperatura, tinha esquecido até de tirar a jaqueta. Nessa altura, todo o povoado já estava comigo. Na última hora, um cara muito gente boa, havia percorrido todo o acostamento comigo em sua pick-up branca. Um dos caras atrás da pick-up gritou! Pulei da camionete e saí correndo lá estava, INTACTA! Agradeci muito a todos, dei uns 300 dólares para o Oriel, mais outros tantos para a família toda que ficou comigo e todos ficaram felizes para sempre!!! Dia 15. De Corrientes a Cascavel (BRA). Saí mais tarde hoje, às 11h15. O termômetro da moto marcava 31 graus, mas certamente estava errado. Devia estar uns 68 graus, no mínimo. Parece que é normal a falta de combustível na Argentina, pois desde Salta até antes de Posadas, encontrei dificuldade para achar gasolina. Repetindo uma observação, as reservas nos hotéis funcionaram muito bem. Foi a melhor decisão que tomei. Outra coisa boa foi trazer pesos argentinos e chilenos, comprados no Brasil. Cheguei às oito e meia da noite em Cascavel, após 768 quilômetros, dos quais 250 na chuva. Aliás, registrando, nenhum policial na viagem toda me parou para extorquir dinheiro. Dia 16 De Cascavel a São Paulo. Sai hoje às 9 da manhã para meu último trecho rumo a São Paulo. 915 km! Já aprendi que só GPS não funciona em viagem. Tem que ter o mapa impresso, tem que estudar os caminhos, tem que perguntar também. Vou editar e publicar os vídeos da viagem, incluindo os tombos! Claro, agora tenho que trabalhar um pouco, mas com paciência e nas longas madrugadas conseguirei fazer isto. Mãe, voltei! Agora você já pode dormir!” Confira a íntegra dos textos e fotos de Fábio Colaferro em: vidavivida.com.br









